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Histórico do Transplante de Medula Óssea



O histórico do transplante de medula óssea tem vários aspectos peculiares, desde os estudos iniciais até o seu reconhecimento em 1990 com o Prêmio Nobel de medicina agraciado ao Dr. E. Donnall Thomas. A medula óssea foi inicialmente utilizada para tratar doenças em 1891 por Brown-Sequard numa preparação oral para tratamento de leucemia.

Em 1899, tentou-se injetar intramedularmente a medula para tratamento da anemia aplástica. Entretanto, estes dados iniciais foram refutados por Billings (1894) e Hamilton (1895) que correlacionaram os resultados ao conteúdo de mineral e ferro do material.

Em 1937 Schretzenmayr administrou injeções intramusculares de medula óssea alogênica e autóloga a pacientes portadores de infecções, com algum sucesso.

A primeira utilização intravenosa de medula óssea foi realizada por Osgood em 1939,embora esta via tenha sido desconsiderada por muitos anos. Bernard, em 1944, injetou medula óssea alogênica dentro da cavidade medular e concluiu que os pobres resultados eram decorrentes do fato das células atingirem a grande circulação. Jacobson e Cols (1951), demonstraram que camundongos poderiam se recuperar da irradiação letal se áreas dos fêmures e baço fossem protegidas com chumbo. Posteriormente, Lorenz em 1952 mostrou recuperação hematopoética após infusão de medula em camundongos irradiados.

Após a segunda guerra mundial estimularam-se os estudos com a medula óssea conferindo radioproteção em animais irradiados. Estes estudos foram desencadeados principalmente após a observação dos efeitos sobre a hematopoese com as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. A idéia do transplante de medula óssea foi rapidamente transportada para a clínica para a proteção contra os efeitos mieloablativos da químio e da radioterapia e correção de falências medulares.

Os problemas iniciais foram grandes no início do transplante. No campo do transplante autólogo os desafios eram com a criopreservação da medula e no transplante alogênico, os problemas imunológicos com a rejeição. Em 1961, Friedman padronizou a cultura mista de linfócitos e somente com a caracterização dos antígenos leucocitários humanos (HLA), que o transplante alogênico ganhou maior impulso.

George Mathé foi pioneiro no desenvolvimento do transplante de medula clínico. Em 1958, seis físicos foram expostos acidentalmente a doses de irradiação entre 600 e 1.000 rads. Eles foram tratados com infusão de células da medula óssea alogênica. A recuperação hematopoética foi temporária mas serviu para proteger os pacientes durante o período de aplasia. Mathé ainda foi o primeiro a descrever a doença do enxerto contra-hospedeiro (GVHD) humana. Esta doença acontece devido a diferenças no sistema HLA entre o doador e receptor.

McFarland, em 1961, foi o primeiro a identificar que o condicionamento pré-transplante de medula óssea era importante para a recuperação na nova medula e nos casos de leucemia, para a erradicação do tumor. Estudos posteriores foram elaborados por E. Donnal Thomas com seu grupo em 1957. Ele estudou em cães os efeitos da radiação corporal total e o uso do Metrotrexate na prevenção da doença do enxerto-contra o hospedeiro.

No Brasil, os estudos iniciais foram realizados por Dr. Ricardo Pasquini e seu grupo do Paraná. Este grupo foi o pioneiro no Brasil, e em 1979 realizou o primeiro transplante no Brasil junto com o Dr. Eurípedes Ferreira. Em 1987, Odone e Cols realizaram o primeiro transplante autólogo de medula óssea em criança portadora de tumor sólido no Hospital Sírio-Libanês. Neste mesmo ano o Dr. Drauzio Varella também realizou um transplante de medula óssea em um total de cinco transplantes. Para a realização destes transplantes, utilizou-se um quarto especial com filtro absoluto HEPA e formou-se uma equipe de enfermagem específica para cuidar desses pacientes. Como o número de transplantes não correspondeu à expectativa , o grupo foi desativado.

Em 1993, Dr. Fredericon Dulley e Dr. Celso Massumoto realizam o primeiro transplante alogênico de medula óssea no Hospital Sírio-Libanês. Para tal, utilizaram um quarto comum, sem filtro, devido à desativação do prédio para reformas. A enfermagem que cuidou desses pacientes foi a equipe da Unidade Semi-Intensiva com o apoio das enfermeiras da oncologia, já em treinamento para a formação de um novo grupo.

Em 1994, foi inaugurada a Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Sírio Libanês, com cinco quartos, todos com filtro absoluto HEPA e com um grupo de enfermagem específico e já treinado. Em 1996, Dr. Dulley e Dr. Massumoto realizaram o primeiro transplante alogênico de medula óssea ambulatorial no Brasil, e segundo se relata, o primeiro da América Latina. O ambulatório que recebeu esses pacientes foi o de quimioterapia do Hospital Sírio-Libanês.

Estudos recentes demonstram que os TMO vêm crescendo exponencialmente ao longo dos últimos 10 ou 15 anos. Em 1990, 5.529 transplantes alogênicos foram registrados pelo International Bone Marrow Transplantation registry (IBMTR).

O número de transplantes autólogos realizados em serviços especializados em transplantes alogênicos foi de 5.154 no mesmo ano. Assim, mais de 10.600 pacientes experimentaram os benefícios dos transplantes de medula óssea em 1990, um número que aumenta em 2.000 pacientes em média a cada ano. Esses transplantes são realizados em cerca de 350 instituições e serviços especializados, dos quais apenas 16 são capazes de realizar mais de 50 transplantes-ano (1990). Entre os quais, o Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, a Fundação Pró-Sangue / Hemocentro, o Instituto Nacional do Câncer e o Instituto do Cancer Amaral de Carvalho em Jaú. É importante mencionar este fato dada a correlação observada entre o tamanho dos serviços em que o transplante é realizado e sua probabilidade de sucesso.

Estudos do IBMTR demonstram que no caso de transplantes para tratamento precoce da leucemia, a taxa de sucesso é significativamente maior em serviços capazes de realizar cinco ou mais transplantes por ano.